domingo, 27 de dezembro de 2009

Meu coração tardou

     "Meu coração tardou. Meu coração, talvez, se houvesse amor nunca tardasse. Mas, visto que, se o houve, houve em vão. Tanto faz que o amor houvesse ou não. Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
     Meu coração, postiço e contrafeito, finge-se meu. Se o amor o houvesse tido, talvez, num rasgo natural de eleito, seu próprio ser do nada houvesse feito e a sua própria essência conseguido.
     Mas não. Nunca, nem eu nem coração, fomos mais que um vestígio de passagem entre um anseio vão e um sonho vão. Parceiros em prestidigitação, caímos ambos pelo alçapão. Foi esta a nossa vida e a nossa viagem."


Fernando Pessoa

Nenhum comentário: